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BLUEs on the Road!!!
 


Os dois últimos dias de viagem foram monótonos.

A população folclórica do ser navegante diminuiu consideravelmente em Santarém. Como consequência, todo o espetáculo circense a bordo também.

Risetti, Veracilde jogaram âncora.

Carlos e um par de franceses continuam viajantes.

Eu tomei a liberdade de decretar um retiro espiritual. Desculpem-me o ato de insubordinação.

Mas contrariando as necessidades básicas desse veículo de informação chamado blog, desliguei máquina fotográfica, fechei o editor de textos. E apenas pensei.

Dois dias matutando é muito pensamento!!! Se fosse escrever tudo aqui depois... acho que hoje ainda estaria digitando.

(detalhe cronológico: hoje é dia 03 de novembro, 02:40 da madrugada. Estou no aeroporto de Manaus, atualizando o blog, após novo retorno a SP. Os motivos de tal atraso, explicarei no último post)

A enquete principal.

Comparei Boa Vista com cada cidade que tive a oportunidade de conhecer no caminho.

Conclui que ainda não descobri um paraíso melhor que Roraima!!!

Incrível como lá, o espírito desse que vos escreve, se sente em casa.

Na próxima madrugada devemos chegar em Manaus. E agora sinto uma ansiedade estranha.

Quase 40 dias de férias. Chegaaaaaa...

Confesso que o maior problema é a abstinência do som da sirene da ambulância do SAMU!!!!

Mas enfim, cada coisa no seu tempo.

Se tudo correu bem, o Azulão me espera no Porto Chibatão em Manaus. Amanhã cedo ligo para o responsável e vou buscá-lo.

O plano inicial é liberar tudo até o horário do almoço. E assim dividir o trecho entre Manaus e Boa Vista em duas partes.

Estou preocupado, pois pode ser necessário passar um dia parado em terras manuaras. Afinal amanhã é feriado. 12 de outubro!!! Dia das Crianças!!!

O porto pode estar fechado... descobriremos.



Escrito por =Loras= às 04h42
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O Santarém chegou em Santarém!!! Pleonasmo?

Ufa. O famoso ditado é certo. Quem tem dois tem um, quem tem um, não tem nenhum.

O motor resistiu bravamente. Clap clap clap clap clap!!!

Aqui termina o passeio para a maioria dos turistas. Poucos continuarão até Manaus... enquanto alguns desembarcam, novas figuras sobem a bordo.

O navio permaneceu parado a manhã toda, momento de escambo. Descarrega tomates, batatas, televisão, bicicleta. Carrega uma mudança familiar todinha...

Alguns aproveitaram a oportunidade para conhecer Altér do Chão pela bagatela de 100 reais um táxi de ida e volta.

O preço abusivo, associado ao desejo de retornar por essas bandas a bordo da Endurance (http://www.4x4brasil.com.br/forum/showthread.php?t=24432), me fizeram optar por sossegar o espírito dessa vez. Passei bastante tempo no porto, observando a peculiar relação entre água e terra.

Curiosa a técnica alpinista do coletor de resíduos. Os sacos de lixo são cuidadosamente retirados do navio por um senhor habilidoso com as cordas, que certamente em outros berços seria um desbravador de Everestes e Aconcáguas. Sorte, destino ou oportunidade?

O figura que teve o pescoço esticado alguns centímetros anda na linha. Agora ajuda a carregar e descarregar o majestoso Santarém. Medo ou arrependimento?

Algumas imagens de um breve passeio desbravando Santarém. Saboreei um peixe divino num restaurante a quilo. Uma coca-cola de sobremesa admirando o vai e vem dos barcos no rio... e  de volta aos livros.

Partimos às 15 horas. Mais dois dias até Manaus.

A rotina de ócio forçado é cansativa. Agora ficou mais fácil compreender a saliente necessidade de entretenimento, disciplina e tarefas para ocupar o tempo, tão valorizadas pelos viajantes de outrora. Shackleton e Amundsen dificilmente deixariam seus homens ociosos por muito tempo...

O indicador começa a apresentar sinais de cansaço ao clicar fotos. Os olhos, agora preguiçosos, demoram em identificar o melhor ponto fotográfico.

Os livros estão acabando. Resta apenas um.

Encaramujado. Um livro em PDF, encontrado ao acaso no mundo cibernético, no qual é descrita a peregrinação de um brasileiro a bordo de uma Kombi pelo país.

Sua maneira de escrever é muito bacana, poética e fluida. Certamente acabo de ler hoje ainda... e aí, resta conviver pacificamente com meus neurônios, temores e ansiedades até Roraima.

Momentos como esse, de ócio, sossego, paz e solidão, colocam à prova a capacidade de auto-convivência do ser humano. Será que eu me suporto?

As últimas fotos do dia...



Escrito por =Loras= às 04h26
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Durante a madrugada o navio parou.

Pit stop na cidade de Gurupa, para embarque de novos passageiros.

Até uma Honda CG faz parte da trupe agora. O embarque da moto foi um espetáculo circense a parte.

Hoje conheci o capitão Douglas. Americano, nascido na Georgia. Negro, forte. Tive o prazer de encontrá-lo na sala de comando da embarcação.

Histórias...

No dia de seu aniversário recebeu a convocação do exército americano para servir na guerra do Vietnã. Um ano de treinamento e aos 17 anos embarcava para a experiência mais marcante de sua vida. Fisica e psicologicamente.

Permaneceu lá durante 02 anos e 04 meses. As cicatrizes resistem até hoje.

Lembra-se vivamente, em detalhes, quando ficou 07 dias escondido dentro da água. Respirava através de um bambu, improvisando um snorquel. Sua companhia de 07 homens estava no meio do rio, quanto 3.000 vietnamitas apareceram nas margens. A pele, ao sair, estava tão enrrugada que um dos seus companheiros atirou na própria cabeça, quando percebeu seu estado lastimável.

Acabada a guerra, voltou para os EUA. Seus amigos de infância estavam envolvidos com jogo e drogas, pressionando-o a fazer parte do sistema. Como não queria... a pressão aumentava a cada dia. Até que resolveu atender um pedido desesperado de sua família para viajar, afastando-se de tais "amigos". Da onça, só se for.

Assim entrou para a Marinha Mercante. Dez anos depois com o título de comandante, navegou no mar por muito tempo. Seu serviço é sempre muito requisitado por desenrolar inglês e português.

Casou-se no Brasil. Gerou um casal de filhos que não vivem longe da água. O filho termina os estudos na Marinha Mercante no Rio de Janeiro, a filha quer seguir o mesmo caminho, apesar dos conselhos paternos.

Enquanto estava lá, entra um marinheiro. O senhor poderia por favor desligar o motor de bombordo.

Eita! E agora?

Minutos depois o veredicto. Vamos em um motor apenas. O motor desligado está com a cruzeta quebrada. Ihuuuuu!!! É nóis, de barco manco até Santarém, onde será providenciado o conserto.

Almoço, de sempre. Arroz, feijão, frango e salada de pepino com tomate. Pelo menos um tanto mais nutritivo que as velhas marmitas da viagem ao Pico da Neblina (mas confesso que tenho saudades das bolachas de água e sal com suco tang, certo Sirs Walter, Hans e Pedro?!?!)

Também conheci Risseti, uma brasileña, nascida em Belém, mas que atualmente mora no Uruguai. Depois de se formar médica na Bolívia, onde trabalhou e manteve um programa de televisão durante algum tmepo, cansou-se da "miséria e da pobreza que a medicina trazia diariamente a sua vid.

Resolveu mudar, assumindo a gerência de uma rede de lojas de roupas no Uruguai. Viaja com os pais, pois visitará familiares que não vê há 10 anos no interior de Santarém.

Infelizmente teve sua "bolsita de cremas" roubada no navio durante a última noite. Peo visto acertada a escolha do camarote, né mesmo?

Novo papo com Carlos e dona Tereza, que atualmente tem medo de passar pela baía. Trecho logo na saída de Belém onde a embarcação balança muito. Conta que nas útlima vezes precisou de calmantes para conseguir superar tal balanço. Ainda passa a dica. Durma com a porta encostada, mas destrancada. Nunca se sabe quando o barco vai virar…

- Na baía eu nunca tranco a porta.

Dica preciosa. Daquelas que impregnam a mente.

Depois dessa, acho que vou mudar de pijama e passar a dormir de colete salva vidas.

Carlos e dona Tereza abaixo.

Paramos na comunidade de Prainha. O porto continua mesmo um lugar folclórico. Dessa vez um dos passageiros foi sumariamente deixado para trás. Depois de causar muitas confusões bêbado, além de ameaçar uma funcionária, um suposto formando de direito foi deixado nas mãos da polícia local. Seu rumo seria Itaituba. Tomara que lhe deixem chegar no destino final.

Assim é a disciplina dentro de um navio. Alguns realmente exageram, e se os limites não forem claramente definidos, a situação pode fugir de controle.

Alguns tic tacs depois outro figura é levantado pelo pescoço no refeitório, pois momentos antes, bêbado, havia tentado beijar dona Veracilde a força. Eu tenho a sensação de que ele entendeu o recado...

Ah sim, dona Veracilde. Moça humilde, viaja a Manaus. Costumeiramente percorre o trecho. Em troca de melhores preços na passagem e nas refeições, ajuda na cozinha o taifeiro Edson. Conta-nos, a Carlos e eu, que tinha uma filha com síndrome de Down. Essa, nas idas e vindas entre Santarém e Belém para tratamento médico, virou a princesa do navio. Faleceu aos 16 anos de idade, de complicações cardíacas. Veracilde conta que prometeu a si mesma não se deixar abater e dar a volta por cima. Assim o faz no momento, dois meses depois da despedida.

Vos apresento, Veracilde.

Comecei a ler outro livro. Um livro que faz um breve resumo das principais descobertas e da biografia daquelas que fizeram a história de Medicina Ocidental. Interesssantísssimo.

O pôr do sol hoje foi magnâmaio ao quadrado. Espetacular!!! De qualidade inoxidável. A baixa velocidade de um motor apenas parece que fez o filme passar em câmera lenta. Pena que a pequenes da lente fotográfica não é suficiente para captar a completa beleza de uma cena como essa. Bom, pelo menos dá um gostinho… 

Manhêeeee!!! Achei outro sino para você!!! :-)

Continuamos com meia potência. Assim, a previsão de chegada em Santarém sofre assim um revés de 06 horas. Veremos como será….

 



Escrito por =Loras= às 16h41
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Ahhhhhh não…. Eu perdi a hora. E não vi o por do sol. Unf… preguiiiiiiiiça. Passou. 

Desperto, sinto que hoje estou introspectivo.

Dedico o dia a leitura de um livro.

 

“Conselhos para Um Jovem Médico”

Auro de Giglio

Minha Editora / Manole

 

Estranhas ondas do tempo. Eu deveria ter sido apresentado a esse livro no primeiro ano de faculdade. Mas como sua primeira edição é de 2008, estou apenas 02 anos atrasado, tá desculpado!!!

De fato, o conteúdo é bem interessante.

O autor se propõe a fazer uma análise crítica das justificaivas de suas escolhas. Analisa aquilo que supõe os fatores essenciais para conduzí-lo a sua atual posição de destaque na comunidade médica.

Aprendizado.

Realmente não me identifico muito com o estereótipo médico comum. De minha turma de colegas de faculdade, fui o único a não prestar prova de residência médica no último ano de graduação por escolha própria. E ainda não o fiz.

Tenho uma vontade interna de conhecer um pouco mais o país em que vivo. Quero levantar informação, experienciar, para aí sim escolher como usar a minha medicina, descobrindo a melhor forma de ajudar. Tudo que aprendi nos últimos 04 anos desde a formatura, tem sido bem intenso e significativo. Nos próximos 03 anos preciso decidir, estudar e finalmente entrar em uma residência médica. Antes dos 30, mesmo.

Nessa parte entram as viagens. Uma oportunidade única de autoconhecimento, de testar os próprios limites. Momento de sair da zona de conforto habitual, exigindo soluções, inovações, improviso e uma capacidade adaptativa imediata. Por isso o gosto especial por viagens espartanas, simples e com potencial de imprevistos controlados. É fantástico!!!

Atualmente trabalho com pediatria e resgate. De fato ainda não sei quais dos temas me encanta mais. Talvez eu busque um caminho que junte ambos… não sei. Dúvidas. Ainda tenho 04 dias de matutação pela frente e sem pressa de decidir.

No almoço degustei um temperado frango assado com arroz e feijão, acompanhados por salada de pepino e tomate. Suco de caju para adocicar. Uma tremenda bóia!!! Satisfeito. Aqui permito-me descordar de algumas impressões que li pela internet, questionando a qualidade da refeição servida nos barcos. O rango é dos bons!!!

E olha que nem fome tenho passado. Aprendi no perrengue ao Neblina que a fome é o melhor dos temperos.

Enfim, o forró continua solto lá em cima enquanto escrevo essas linhas.

Algumas mulheres entram no barco sem um tostão furado no bolso. Dançam, rebolam, seduzem. E os paspalhões XY caem na armadilha mais velha da humanidade...

Ao pisar em terra firme vendem suas motos, televisão entre outros bens para pagar a dívida no bar. Afinal pagar a conta da mulherada é um importante passo de auto-afirmação.

Paralelamente, o tempo todo acontece uma outra abordagem mais interessante. Pequenas embarcações a remo, as vezes comandadas por capitães mirins, pescam o Santarém.

Isso é, um ganho metálico preso a uma corda é arremessado nos pneus laterais do Santarém. Ao prender embalam a canoa. Habilmente controladas,  elas surfam, rebocadas pelo navio (praticamente um wakeboard tamanho família!!!!). Finalmente, emparelhadas, o barquinho é fixado na lateral do transatlântico (proporcionalmente). Uma vez a bordo oferecem camarão (02 reais o saco de 1,5kg – uma pena eu ser alérgico….), açaí e outros produtos regionais.

Fantástico!!!

E num desses barquinhos, olha só quem veio me visitar:

Descobri que os anjos também remam!!! Bem vindo a bordo Anjo da Guarda.

Passamos por diversas comunidades ribeirinhas. Variados tamnhos e condições. Impressionante a capacidade de adaptação do ser humano. As crianças aqui provavelmente aprendem a nadar, antes mesmo de andar. E sabem manejar um remo antes de falar. Aposto.

Dá para ter uma vaga noção da experiência que os doutores Airton Leonardo e Rodrigo Santa Cruz tiveram ao trabalhar com a Marinha nesses rios (saudade dos amigos!!!! Velhos companheiros de guerra, um abraço!!!)

O dia passa lento, vagaroso como os pensamentos. Tenho a nítida impressão de que aqui o relógio é mais comprido.

Hora do pôr do sol. Beleza singular, mas escondida pelas árvores a beira do rio. Minutos depois, chuva amazônica para refrescar o pensamento e lavar a alma. Hora do banho, afinal o próximo chuveiro só no sábado!!!!! Hehehehehe Brincadeira.

Bom, voltarei aos livros… abraços.

 



Escrito por =Loras= às 16h34
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Um novo dia. Novos amigos.

Carlos – Caminhoneiro que "puxa carga" da Petrobrás para Manaus. Pela primeira vez resolveu experimentar o trecho de barco. Geralmente vai de avião. Seus irmãos admnistram a transportadora, enquanto ele continua dirigindo Brasil a fora.

Pistola – Marinheiro

Luana - Garçonete

Uma breve conversa ao lado da lanchonete, acompanhados por Luana, que revela como se tornar um membro da Marinha Mercante. Estudo, provas e treinamentos.

Depois de embarcado, uma vez marinheiro, nem a polícia tira do navio. Somente com autorização do comandante. Um misto de Marinha e histórias de lobo do mar. Curioso.

Pistola conta causos, e ambos observam o comportamento dos homens e mulheres dançando forró. Assim conseguem antecipar os eventuais problemas, deixando-os de marcação cerrada. Vacilou, anda na prancha. Ou se forem sortudos, são deixados no próximo porto do caminho.

 Pergunto sobre a quilometragem entre Belém e Manaus. Prontamente sou corrigido.

-        - Aqui no navio não usamos quilômetros e sim milhas náuticas. Uma milha náutica equivale a 1820 metros.

  -    -- Certo, desculpe-me. São quantas milhas náuticas de Belém a Manaus?

  -  - Boa pergunta, não me lembro. 

-       No navio é proibido embarcar com bebidas alcoólicas. Apenas as servidas no bar podem ser consumidas. Assim, eles controlam quem bebe o que. Exagerou, gancho nele.

Pelo visto será uma experiência bacana. Estou bem ansioso e empolgado com a idéia. 06 dias de navio. Pouco, se comparado aos meses que os antigos viajantates passavam para atravessar ocenaos ou chegar em locais desconhecidos. Uma imersão no universo náutico (lembraça ao velho lobo do mar Walter, que nesses horas deve treinar manobras de resgate na lagoa. Não deixa a gatorade morrer hermano!!!!)

A previsão de chegada em Manaus é domingo a noite. Veremos. Portanto acredito que segunda após o almoço saio para a BR-174.

Como o acesso a internet não será constante nos próximos dias, vou fazer as antigas. Vou fazendo os relatos e gravando. Na primeira oportunidade, atualizo o blog.

Vou dormir cedo, para tentar fotografar o nascer do sol…

Saudações navegantes a todos. Fotos de hoje...



Escrito por =Loras= às 16h14
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Terça-feira, 17:15. Embarco no Santarém rumo a Manaus.

Aqui começa uma experiência única. Totalmente folclórico. Fantástico!!! Indescritível.

Se em algum momento de sua vida, você tiver a oportunidade de fazer essa viagem, não vacile. Arrume as malas e vá.

O porto é sempre um lugar caracteristicamente desorganizado. Carregadores, familiares se despedindo… ponto de partida. E futuramente, chegada.

Percebo franceses com os trajes típicos de turistas-safaris-africanos. Um casal de olhos puxados (Coreanos? Japoneses? Chineses?)

Uma loira hablando espanhol. Nordestinos, manauaras, paraenses e até um paulista perdido no meio de tanta soma.

Diversidade cultural, empacotada em 06 dias de convivência, flutuando sobre as águas... expectativa.

Conheço com seu Edson, o taifeiro que trabalha no Santarém há 04 anos. Ponto importante. Afinal preciso cuidar de Zoraide, minha lombriga de estimação.

Café, almoço e jantar. Seu Edson promete anotar carinhosamente cada refeição consumida e pago tudo na saída. Fechou.

Dona Rosa, a enfermeira que trabalha no rio há 20 anos. Disse que não consegue conviver com as safadezas que acontecem dentro de um hospital. Depois de ficar viúva, resolveu viver navegando.  Além da responsabilidade sobre a enfermaria, ajuda na cozinha quando está livre. Companhia saborosa para a primeira refeição a bordo. Sopa de carne.

Tereza, a arrumadeira que prontamente providenciou o camarote número sete para esse que vos escreve.

Exploro o navio. Filmes imaginados em leituras das viagens de exploração da antártida vêm a mente. Shackleton, Scott, Amundsen… aquela logística naval grandiosa.

Aqui não se fala em quilo. Tonelada sim. Uma realidade distinta, fora dos padrões habituais de uma vida mansa na cidade. Percebo  que viver no mar ou rio nunca foi uma opção profissional minha por falta de conhecimento.  Nunca soube realmente como seria a vida de um marinheiro. Bom, acho que terei uma breve amostra. Ainda é tempo de mudar...

Um colorido espalhafatoso no salão das redes. Aquele zumzuzm típico do aglomerado de gente. Folclore. Conheço um maranhense que vai junto com a família para Manaus, em busca de empregos e oportunidades.

No porão um carregamento imenso de cebolas, tomates e batatas. Zoraide pode ficar sossegada!!! Vinagrete por 04 dias não seria tão ruim assim.

Encontro também uma bicicleta, um microcomputador, peças sobressalentes..

 

Entro na nova habitação. Um minúsculo espaço longitudinal, onde cabem a beliche e uma pessoa de lado. Meia volta volver lá dentro? Nem pensar. Entrou de frente volta de marcha ré. O banheiro abre-se numa porta no final a esquerda. Mede exatamente 01 x 01,5m. E dentro dele se espremem uma privada, um pia e um chuveiro.

Bem vindo a bordo!!! 

Primeira ação. Checar o estado do colete salva vidas. Tudo ok. Deixa a mão… e agora sim, ligar para Dona Lourdes e aviso que estou embarcado.

   

 

Novamente imagens… do Endurance, Terra Nova, Discovery... recordo da descrição de habitações e compartimentos dos navios de outrora. Pasmem. Eu tenho ar condicionado no camarote!!! Um luxo. Evidências do progresso tecnológico da humanidade.

Por vezes penso… hoje não há aventura nenhuma. Com tanta tecnologia: casacos impermeáveis respiráveis, cordas levíssimas e ultraresistente, solados aderentes a tudo, talheres de titânio, freios ABS, piloto automático, direção hidráulica, ar condicionado no camarote…

Uma porção de avanços que tornam as aventuras de hoje um verdadeiro passeio ao ar livre.

Ferramentas ou artimanhas, que por vezes, em minha opinião, aliviam a intensidade da experiência vivida.

Aventura mesmo seria fazer esse mesmo percurso numa canoa de madeira, impulsionada a remo. Talvez num futuro não muito distante... hum...

Quero o espartano, o simples, o primitivo. Adorei saber que nosso barco não tem GPS. Apenas bússola, radar, profundímetro e só.

Subo ao convés e faço algumas fotos do primeiro pôr do sol.

 

Partimos. Duas horas de atraso esperando uma peça que estava na oficina. Será que é peça do motor? Melhor não saber... :-)

 



Escrito por =Loras= às 00h26
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Jesus voltaria de avião, passagem confirmada.

Agora era minha vez de providenciar transporte.

Barco? Canoa? Avião? Teco teco? Ônibus? Carona? Bicicleta? Patinete?

Caçadores de folclore!!! Por que não fazer a  viagem de barco Belém-Manaus?

O primeiro desafio. Descobrir onde comprar as passagens.

A navegação não é exatamente uma atividade organizada por aqui. Hidroviária? O que seria isso mesmo?

Cada barco parte do porto que bem entende. Não há site, lojas de passagem, nada. Cansei de procurar informações ainda em SP, e não achei.

Foi então que num golpe de sorte, encontrei um vendedor da COAPABAM Seu Raimundo Filho. Misteriosamente somente ele possuia os talões de venda... mistéeeeeerio.

Apesar dos pesares, recomendo seus serviços nos telefones.

(91) 9625-5690 / 9197-3658

Outro contato que pode ser útil, vendedor Edias Ferreira:

(91) 9603-0170 / 9195-9137

O ideal é que antes de programar sua viagem, você entre em contato com eles. Assim descobre as datas de saída e retorno de cada embarcação.

O site www.mochileiros.com.br foi bastante útil para levantar informações, principalmente sobre qual embarcação era mais recomendada.

Boas novas. Dois barcos partiriam para Manaus. O Santarém e o Rondônia.

O Rondônia é um catamarã, da antiga ENASA, que ainda navega as doces águas amazônicas. É o maior barco da região. Conduziria a dupla dinâmica, Loras e Azulão, sobre as águas pela  bagatela de R$3.000,00. Baratim né?!?!

Ainda bem que Azulaão já navegava protegido na balsa do Passarão. Optar pela viagem separados foi uma boa escolha. Somando frete do Azulão + minha passagem de barco, metade do preço. Depois, o Santarém ainda sairia de Belém na terça-feira, momentos depois do embarque de papai. Perfeito.

Bom, nesses barcos (aliás, baaaarco não!!! Navio, viu dona Lourdes??!?!) você tem opções de acomodação:

-     - Salão das redes (banheiro coletivo)

-     - Salão das redes com ar condicionado (banheiro coletivo)

-     - Camarote (o Santarém é o único com banheiros privativos nos camarotes)

-     -  Suíte de casal com frigobar

Eu realmente gostaria de viajar nas redes. Afinal, folclore é folclore.

Mas a questão material foi determinante. Com máquina fotográfica, maçã, filmadora e outros pertences, eu precisei escolher um camarote.

A rede é simples. Compre seu lugar, amarre sua rede. Guarde as coisas embaixo dela. Pronto. Boa viagem.

No camarote… existe uma beliche. Se você comprar apenas um lugar, corre o risco de dividir lugar com alguém desagradável.

Optei por viajar sozinho. Assim viajaria de posse da chave do camarote.

Seu Raimundo explicou tudo. Sabichão o moço.

Assim que decidi, imediatamente contatou o dono do navio por telefone. Confirmada a disponibidalidade, emitiu o ticket e pronto. Inacreditável!!!

Recebi um comprovante simples, carimbado e totalmente falsificável. Fiquei com aquela nítida sensação de ter sido enganado. Por via das dúvidas, resolvi ir até o local indicado como ponto de partida do Santarém para averiguar.

Momentos depois...

 

 

Majestoso Santarém.

 

Em processo de carregamento. Nessa época a demanda de passageiros diminui por isso eles aceitam levar cargas no compartimento de baixo.

 

Algumas curiosidades sobre  as passagens:

- é possível negociar direto com o pessoal do navio. É mais barato. Se eu tivesse negociado direto no porto, nos últimos momentos antes de partir, teria fechado um camarote por 400 reais. Na época que o navio viaja vazio… vale negociar. De novembro a fevereiro não tem jeito. É cheio mesmo. Paga o que pedem.

-     - se o navio já estiver no porto, você pode se hospedar nele, mesmo antes da viagem continuar, enquanto ele é carregado.

-     - cada camarote foi negociado por um preço. Bem no estilo a gosto do freguês. Os gringos chegam a pagar R$1.500,00...

Enfim, agora navegaremos. No ritmo da Amazônia.



Escrito por =Loras= às 14h36
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(nota: estou embarcado. A dificuldade de acesso a internet desde que sai de Belém impossibilitou atualizar o blog antes. Aproveito a parada estratégica em Santarém para usufruir das modernidades tecnológicas!!!!)

Belém

Depois de despachar o carro, que deve chegar sábado em Manaus, voltamos ao hotel para planejar a estratégia de fuçar Belém. 

A novidade. Chegamos por aqui exatamente uma semana antes da festa do Círio de Nazaré. Isso é, a maior festa religiosa do Pará!!! Ocasião em que toda população acompanha a procissão da imagem de Nossa Senhora de Nazaré entre a Basílica e a Igreja matriz. Um culto religioso que costuma durar o dia todo. Já imaginou? 14 horas para percorrer 05km? Não basta ter fé. É preciso preparo físico e muita água!!!

www.ciriodenazare.com.br

Algumas curioisdades.

- Aqueles que desejam se aproximar para pegar na corda que puxa a santa, devem fazê-lo descalço. Assim ninguém machuca ninguém (quer dizer, pelo menos se ninguém tiver um pé no. 48. Certo Freddi? Ah propósito, consegui novas Havaianas).

- A cidade começa os preparativos uma semana antes. Hoje a tarde (quarta-feira) o trânsito já sofre reflexos das ruas interditadas. Bandeiras, faixas, pulseiras, imagens... todo o comércio local gira em torno da festividade.

- Belém recebe pessoas do mundo todo para a romaria. Hotéis lotados, restaurantes idem. Loucura, loucura, loucura!!!!

- No sábado precedente é organizada uma romaria fluvial, na qual os barcos acompanham a imagem da santa durante um trecho no rio.

- A prefeitura mostra seu trabalho, recapeando as ruas onde a procissão passa, para que ninguém suma nos buracos...

Meu espírito ermitão solitário se fez presente. Gosto muito pouco de algomerados de gente. Com raras exceções, prefiro uma aconchegante tranquilidade.

Ufa!!! Uma semana antes.

Se chegasse 07 dias depois, não haveria hotel, passagens de barco, avião, etc.

Pessoalmente, vejo uma brilhante jogada de marketing da igreja católica. Respeito aqueles que têm fé, devotos de Nossa Senhora, mas realmente não vejo justificativa para tanto.

Religião para mim é algo particular, exercido no interior de cada um.

Considerações teológicas a parte, além de presenciar os preparativos para o Círio, visitamos também outros atrativos turísticos que Belém oferece:

 

Mercardo Ver o Peso

Folclore puro. Um espaço singular, popular, com características culturais marcantes. Encontra-se desde comidas, temperos, polpas de frutas, artesanato a frangos e patos a a venda. 

Interessantíssimo. Um dos locais que mais gostei!!! Recomendo demais.

 

Estação das Docas

Bacana a iniciativa do governo do Pará. Restaurar construções antigas para que virem atrações turísitcas. E assim o Shopping Estação das Docas foi instalado dentro de um antigo armazém portuário que estava desativado, já que os barcos não conseguem mais atracar em sua beirada devido a maré. A estrutura do barracão foi usada, inclusive os trilhos que sustentavam o antigo guincho. Hoje suspendem um palco móvel, onde músicos fornecem música ao vivo 'andante sobre a cabeça de quem está comendo".

Nesse local existe um restaurante chamado Capone. Tem comida regional, massas e outros. Absolutamente gastronomicamente inegualável (By Everton Pisero). Delícia!!!

Centro de Joalheiros

Prolongando a linha arquitetônica acima, o governo restaurou um antigo presídio para abrigar o centro joalheiro da cidade. Artistas trabalhando ao vivo.

Expressiva a energia pesada que o pátio ainda transmite. Tive uma sensação muito esquisita ao entrar na cela onde estão expostos alguns objetos da época de atividade do presídio. Armas improvisadas com talheres, facas, um mural fotos das rebeliões e até mesmo criativas agulhas de tatuagem improvisadas. Chocante.

 

Casa das 11 Janelas

Point dos namorados românticos da cidade. Uma porção deles. Uma vista privilegiada da baía e uma brisa refrescante!!!

No mesmo local há um restaurante famoso, mas confesso que não agradou meu refinado paladar. Carne de sol torrada. Salada destemperada. E no final, bolso furado.

Talvez na próxima vez...

 

Fato curioso é a chuva por aqui. Incrível a adaptação das pessoas a ela. Aguardávamos o jantar quando desabou um temporal.

Imediatamente os namorados buscaram abrigo dentro do prédio. Uma correria danada para salvar as escovas e chapinas!!!

20 min depois, sorrateira como veio, a chuva foi-se embora.

Todos, sabiamente, esperaram até o término da mesma, reassumindo exatamente a antiga posição.

Ufa, as chapinhas estavam salvas!!!

Isso se repetiu todos os dias. O tempo congela ao cair a água.

A chuva vem. As pessoas pausam seu dia por 20 minutos. Assim que a chuva passa, voltam a fazer exatamente o que faziam antes… a prova existencial da Teoria da Relatividade.

Um taxista nos contou que no mês de março existem 03 chuvas que inundam Belém.  E só. Por se tratar de uma cidade plana, cercada de água por todos os lados, eles não tem problemas com enchentes como SP...

Mangal das Garças

Parque ecológico muito bem cuidado e organizado (obrigado pela dica Wolf!!!!). Visita relâmpago. Infelizmente, devido ao trânsito e horário de vôo do papai, não pudemos aproveitar mais.

Mamãe queria um presente. Um sino de Belém.

(Manhêeee... infelizmente a moça não deixou eu levar para casa!!!)

 

Infelizmente a escolha estratégica do hotel revelou-se inadequada. Ao optar ficar perto do aeroporto, pela facilidade de despachar o carro, ficamos longe das atrações turísticas. O táxi é caro, logo tivemos que limitar os passeios e saídas exploratórias. Uma pena por um lado. E um motivo para voltar pelo outro!!!

 



Escrito por =Loras= às 13h27
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Trecho Imperatriz - Belém

Distância percorrida: 589km

Tempo deslocamento: 07hs 50min

Velocidade média: 75,2km/h

Consumo médio: 9,2km/l

 

Distância acumulada: 2.920km

Tempo deslocamento acumulado: 38hs 05min

Velocidade média acumulada: 74,7km/h

Consumo geral: 9,2km/l

 

Time que está ganhando não se mexe!!! Então repetimos a dose.

Alvorada cedo, muito cedo.

Ontem por duas vezes o motor apresentou um ligeiro contragolpe ao ligá-lo. Um dos sinais de ponto de ignição adiantado.

Exceto atrasar milimetricamente o ponto, não precisei mexer mais nada no carro. Ufa!!!

Parece rally mesmo. Eu dirijo o dia inteiro. Meu pai vai seguindo as planilhas e mapas. Chegamos cansados, com sono e ainda é necessário revisar / ajustar o carro para o dia seguinte.

Fiquei realmente tentado a participar do Rally dos Sertões. Será que o Azulão aguenta?

O dia passou bem rápido. Andamos bem na parte fria, antes das 10:30.

Depois não podia manter 3.000rpms por períodos prolongados de tempo, que a temperatura logo chegava nos 90oC. Para evitar surpresas desagradáveis, andava a 2.500rpms e 85oC.

Passamos pelo segundo acidente. Um caminhão que tombou ao lado da pista, descendo o barranco após o acostamento. Talvez por falta de sono... os caminhoneiros são realmente curiosos e um tanto irresponsáveis. Quem já viu pelo retrovisor um monstro de algumas toneladas, na banguela, puxando para a esquerda, visando te ultrapassar, sabe bem do que estou falando!!!

Um trecho muito esburacado. Usei a velha tática do "boi de piranha". Um busão ultrapassou o Opala voando baixo. Perfeito.

Ele foi na frente... conforme ia caindo nos buracos, eu sabia onde não passar!!! 

No Maranhão, capacete não existe. Indaguei o motivo e nenhum dos três interrogados soube responder. Talvez pelo calor?

De brincadeira, papai resolveu testar a força de seu pensamento.

Veja o resultado:

Essa mágica nem o Mister M. explica!!!!

Outra curiosidade. Conforme avançamos para norte percebo que o aumento da temperatura do ambiente é inversamente proporcional ao tamanho das roupas femininas. Impressionante e desconcertante. Fator gerador de acidentes de trânsito, sem dúvidas.

Alguns quilômetros até o destino final... resolvi esvaziar o tanque reserva que trouxemos em caso de imprevisto.

Loras, versão frentista.

Eis então que chegamos na famosa Belém!!!

- Muito prazer, Loureiro. Ricardo Loureiro.

Assim que resolvemos a questão do hotel, seguimos para as docas das transportadoras. O despacho do carro é prioridade, visto que leva em média 06 dias para subir o rio até Manaus.

Opções: Bertolini, Linave e "Passarão".

As duas primeiras só levam carros de pessoas jurídicas.

A terceira tem uma empresa "parceira" de plantão a distância pelo celular. Quando chega um cliente, acionam o famoso Sr. Piedade.

Duas horas depois, tudo resolvido. Vistoria, guia de entrega, pagamento.

Dessa maneira, procurando direto a empresa fluvial, consegui um desconto de quase 30% em relação ao preço cobrado pelas transportadoras.

Fica a dica para os próximos viajantes!!!

E assim, o Opalão foi embarcado numa carreta. Que seria embarcada num navio rumo a Manaus!!!

Urraaaaa!!!! Azulão embarcado. Fase I concluída!!!!

Rearranjei alguns plantões (obrigado Adriana!!! obrigado Cleuton!!!). Dessa forma estiquei uma semana as férias. Seguirei para Manaus. De lá para Roraima!!!

O Azulão deve chegar na sexta ou sábado. Então provavelmente domingo a noite durmo em terras macuxis!!!

Amanhã decido como será a semana. Talvez uma viagem de barco até Manaus. Talvez uma viagem de avião até Santarém e alguns dias de ócio em Álter do Chão.

Papai volta de Belém para SP. As fases II e III viajarei sozinho. Tempos de reflexão.

Confesso que o coração está um tanto apreensivo em deixar o Opala longe. Que a energia das águas façam uma boa viagem!!!



Escrito por =Loras= às 23h00
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(continuação)

Minutos depois, uma agradável surpresa.

Uma base do SAMU192!!! Linda, reluzente, perfeita. Impossível. Deve ser uma miragem.

Apertei os olhos, belisquei o braço. Não, não estava dormindo.

Eterno curioso, fiz a volta e fui averiguar in loco. Indescritível!!!

Uma sede totalmente projetada de acordo com as necessidades do serviço. Bem localizada, com saída estratégica das ambulâncias, rampa para lavagem, salas privativas, sala re regulação, vestiários... um sonho!!! A prova de que uma política pública bem executada é viável!!! Lembranças ao pessoal do SAMU192/RR, tô chegando!!!


Enxuga as babas, recolhe o queixo caído. Hora de seguir viagem.

Aportamos em Imperatriz escurecendo, após saborear um belo por do sol a beira da estrada. Devidamente instalados no hotel Alcazar Palace, escolhemos pizza no jantar.

Depois de 40 minutos esperando a massa com queijo...

Eu cansado, dormi na mesa. Uma gafe daquelas!!! Capítulo 3 do curso de etiqueta suíço segundo meu mestre Bêlo. Acho que cabulei essa aula!!! hehehehe

Amanhã repetiremos a dose. Se tudo correr bem, chegaremos em Belém!!!




Escrito por =Loras= às 22h48
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Trecho Gurupi - Imperatriz

Distância percorrida: 783km

Tempo deslocamento: 11hs 23min

Velocidade média: 68,7km/h

Consumo médio: 9,9km/l

 

Distância acumulada: 2.331km

Tempo deslocamento acumulado: 30hs 15min

Velocidade média acumulada: 74,2km/h

Consumo geral: 9,2km/l


Deus ajuda a quem cedo madruga!!! Assim dizem os sábios.

Como planejado, hoje levantamos antes do galo. Saímos ainda no escuro do hotel. O primeiro teste dos sealed beam originais do Azulão. Até que ilumina direitinho. Associados com a visão samurai ninja quase fechando, um conjunto óptico perfeito.

Na saída um ruído estranho na roda traseira direita. Sobe o carro no macaco, chacoalha a roda. Nada, tudo justo. Tudo em ordem. Provavelmente algum ajuste das lonas / panela de freio. Tomara mesmo que fosse só isso...

Seguimos.

07:15 da manhã já havíamos rodado 160km quando paramos para o espartano desjejum a beira da estrada. Temperatura agradável e muita neblina.

Note o nascer do sol na tela azul:


Andamos mais alguns quilômetros acompanhados pelo nhec nhec nhec (daqueles barulhos "circulares"), que sumia ao acionar os freios. Parei de novo. Senti a temperatura nas rodas, nada de anormal.

Como diz o velho amigo Sir. Walter:

- Eu não tenho medo de nada.

O máximo que poderia acontecer é a roda sair voando na estrada... por isso, eu andava bem rápido. Assim nem sentimos falta dela quando cair... 

Bom, a roda havia sido completamente revisada, por isso estou bem tranquilo quanto a isso.

Sem a válvula termostática o desempenho melhorou significativamente. Antes das 10:30 a temperatura não passava de 80 graus, mesmo em subidas e ultrapassagens forçadas. Incrível.

Depois, com o sol a pino novamente, não passava de 90oC. Mesmo exigindo os 3.000rpms.

No entanto em marcha lenta… se não tomar cuidado esquenta demais, beira os 100oC.

Divinamente, um sopro celeste resolveu colaborar hoje, colocando nuvens sobre nosso caminho praticamente o dia todo. Apenas entre 13-15 hs o céu abriu por completo.

Tá vou confessar. A receita para esfriar a febre do Azulão foram dois comprimidos, um Tylenol e um AAS misturados na água do radiador pela manhã. Ficou show!!!

Decidi que mamãe merecia uma foto melhor do porta trecos. Aquela primeira não mostrou a cor dele... ficou um tanto azulada. Aqui vai uma nova!!!


No posto de gasolina, enquanto abastecíamos, o carro e o bucho, a primeira proposta de compra.

-     -  Você não vende não?

Para. Pensa. Decide. Responde.

-     -  Vender eu vendo. Mas veja que não tem placa de venda, tem? R$40.000,00 a vista e fechamos negócio.

Ainda bem que o rapaz declinou…. já imaginou ter que terminar o resto a pé?

Momentos depois na estrada, o pensamento… quanto vale um sonho? Valeria a pena vender o Opalão e deixar de completar essa jornada?

Por quanto?

Vendê-lo assim, seria excesso de desprendimento material?

Ou ainda a figura representativa do capitalismo canibal puro, onde vale ganhar $ a qualquer custo, mesmo que isso implique em vender um sonho?

Quanto vale o seu sonho?

Na subida… lá vem um caminhão. Leeeento. Sem acostamento, sem terceira faixa. Engatei a primeira. Engatei a segunda… opsss….

Encavalou!!!! Acredita?

Atire a primeira pedra o dono de um opala 03 marchas na coluna que nunca encavalou os engates?

Abre o capô, reseta as varetas e varões. Voilà. Pronto para seguir.

Quilômetros depois...

Imagine a seguinte cena. Vários elefantes num pequeno cercado gramado. Espalhe um milhão de formigas. Coloque uma valsa. Os elefantes devem dançar sem bater uns nos outros e sem matar qualquer formiga.

Simples não?

Agora troque elefantes por caminhões. Cercado pela Belém-Brasília e formigas por buracos. Sentiu o ritmo?

Depois coloque um tal Opala azul no meio da salada. Olha só o bailado abaixo…


Após o baile de gala, um Sandero emparelha com o Opala.

- Vocês vem de onde? RJ?

- Não, viemos de SP.

- Não tem pena de colocar o Opala nessa buraqueira? Uma relíquia dessas!!!

Isso é realmente curioso. Realmente não sou do tipo admirador. Daqueles colecionadores que comprar vários carros para expor na vitrine de casa. Cuido com esmero e carinho dos meus companheiros de aventuras, mas na hora do vamos ver, uso mesmo. O Opala, com suspensão nova, justa e mais alta que os carros modernos, deu show!!! Enquanto um Honda Civic desviava de buracos microscópicos, a brutalidade de um projeto de 70 mostrou seu valor!!! Ai que saudades da Camper e da Defender...

Chegamos na fronteira. O Rio Tocantins e a ponte são belíssimos!!! Parada estratégica para admirar a vista, sacar fotos e simbora!!!

 


Ufa! Entramos no Maranhão. 

 



Escrito por =Loras= às 21h27
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Eita!!! Estou inspirado.

Escrevi muito e fui censurado pelo número máximo de caracteres do UOL.

Por isso aqui vai o término do post anterior...

 

 

Infelizmente hoje passamos pelo primeiro acidente. Uma colisão de dois Palios. Por sorte a viatura do SAMU já se encontrava a caminho e não precisei exercer minhas habilidades médicas. Tudo bem, eu gosto muito de trabalhar com emergência. Mas férias, são férias, certo?

Motoristas irresponsáveis. Uma pena. Tudo bem se eles querem se matar. Mas ao colocar a minha segurança em risco, eu fico bravo. Muito bravo.

Dica do dia. Não queira me ver bravo. Tenho poderes samurai ninjas milenários e por isso sou perigoso. Não queria me ver bravo.

Destemidos adentramos o estado do Tocantins!!! Agora que eu já estava acostumado com o sotaque goianense... unf...



As estradas pioraram um pouco, apesar dos esforços do DNIT em duplicá-las e mantê-las em ordem. Sem buracos, felizmente.

Mas alguns trechos com ondulações inportunas. Estatística do dia: 35 ultrapassagens em caminhões. O movimento carga pesada é intenso e constante.

A moda agora são os bi-minhões, conhecidos como Romeo e Julieta. Um monstrengo compridoooooo que torna cada ultrapassagem um jogo de pura paciência.

Chegamos em Gurupi às 19 horas, nos instalamos no Hotel Venezza no centro da cidade. Acomodações medianas, mas suficientes para um bom descanso.

Tomara que durante a noite o Azulão tenha sonhe com Ferraris, Lamborghinis, entre outras gatinhas. Assim amanhã acorda de cabeça fria.

Fato curioso. O povo do Tocantins se refere aos carros sempre no feminino. Ex. Esse banco dela é original? E o motor dela, foi todo feito?

Mudaremos a tática. Sairemos as 04 da manhã. Rodamos até 11 horas. Descansa até as 16. E roda até as 19. Assim evitamos o período de maior calor. De repente dá certo.

Noite.

 



Escrito por =Loras= às 22h34
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Trecho Anápolis - Gurupi

Distância percorrida: 583km

Tempo deslocamento: 07hs 34min

Velocidade média: 76,9km/h

Consumo médio: 10km/l

 

Distância acumulada: 1.548km

Tempo deslocamento acumulado: 18hs 52min

Velocidade média acumulada: 79,8km/h

Consumo geral: 8,5km/l

 

 

Hoje o anjo resolveu bater asas e voamos rumo ao Tocantins!!!

Alvorada no horário.

07:13 o Azulão voltava a encarar os primeiros quilômetros do dia na BR-153 (Transbrasiliana). Psicoteerapia de exposição, já que se tratava do mesmo asfalto onde havia refugado dois dias antes. Será que o Opala tem síndrome do pânico? Hum...

Dessa vez, perfeito!!! Então, fé em Deus e pé na tábua!!!

O sol subia no globo azul. A temperatura ambiente acompanhava. A harmonia era tão forte que o ponteiro do marcador resolveu se juntar a dupla!!!

Ai ai ai ai ai…

Eu juro que abri os olhos o máximo que pude. Era verdade. O Azulão estava de cabeça quente!!! Beirando os 100 graus. Termômetro mecânico, de mercúrio, não deixa enganar.

Uma breve explicação.  Diz o ditado "quem tem dois, tem um. Se você tem um, não tem nenhum".

Por isso instalei dois relógios de temperatura da água no carro. O primeiro, elétrico, reflete imediatamente um aumento na temperatura no gráfico. Mas não é muito preciso. O segundo, relógio de mercúrio mecânico, demora mais para subir ou descer no marcador, visto a lentidão do processo térmico-mecânico. No entanto é muito mais confiável e preciso.

A associação dos dois corretamente interpretada é fantástica.

E naquele momento ambos estavam no vermelho. Não havia como negar.

Ah não... de novo não... o que agora?

O que fazer?

Momentos que eu particularmente gosto. Imprevistos. Um teste da minha capacidade adaptativa. Meus conhecimentos mecânicos colocados a prova. Uma decisão que pode definir completar ou não a nossa jornada!!!

O mesmo tipo de situação que vivencio diariamente no SAMU 192. Os imprevistos é que determinam a singularidade de cada ocorrência. Nós dispomos de um leque de conhecimento, baseado no estudo e treinamentos prévios. Mas nem sempre isso é suficiente para resolver a situação. É preciso de criatividade, bom humor, liderança, confiança e uma análise minuciosa do quadro para conseguir contorná-lo. Esse processo, pessoalmente, acho fantástico!!! Me fascina.

Recolhe todos os dados disponíveis. Levanta informações. Escuta sugestões.

Matuta. Pensa. Elabora. Raciocina. Decide.

Olho para o acostamento!!!

Os ohos arregalam de novo. Eita!!! Um posto de gasolina. Perfeito. Sombra e água fresca.

E ao lado uma construção escrito: Serviço Radiadores

Coincidência? Forças da Providência (by Shackleton)?

 

Pelo visto o anjo da guarda voou na frente e prepararou a comitiva antes. Só faltou o tapete vermelho. Mas juro que nem senti falta.

Estaciono o carro. Imediatamente um grupo de jovens, todos sujos de graxa, se aproxima. Abro o capô… e daí para frente o que já se tornou rotina…

Papo para mais de hora. Conheci o Demétrio, que possui uma Marajó AP turbo toda preparada para drifting, e também um grupo bacana de admiradores de antigos (obrigado pela ajuda irmãos!!!). Na garagem deles, entre Mavericks, Corcel I, etc.

De volta ao aquecimento.

O radiador novo que eu havia comprado tem algumas desvantagens. É pequeno e tem as tampas de plástico. Isso reflete em menor capacidade de resfriamento. Já tinha sido alertado algumas vezes, mas ainda decidi mantê-lo. Decisão errada?

Talvez fosse a causa do problema. Por isso apesar de estar perfeito, optei por trocá-lo.

Desmontei o radiador enquanto um dos novos amigos acompanhou meu pai, para comprar um radiador original usado, tinta preta e uma mangueira nova.

 

Os devidos reparos estéticos no radiador velho, que ficou quase novo: 


Testamos possívei vazamentos. Coloquei água, que saiu limpinha. Perfeito.

Já que (olha ele aí de volta) estava tudo desmontado, resolvi testar a válvula termostática. Se ela estivesse travada, poderia ser a causa do problema. Impulso de criatividade. Preciso de um jeito de fervê-la na água. Se abrir, tá funcionando beleza. Ferramental improvisado num histório fogão a lenha do posto de gasolina e voilà!!! Válvula perfeita.

 

O lado bom: a válvula, colocada nova, estava ok.

O lado ruim: ainda não sabia de onde vinha o aquecimento.

Em seguida, uma falha de comunicação poderia ter causado o desperdício de 5 litros de líquido aditivado para o radiador. Eu achei que disse uma coisa. Meu pai pensou que entendeu outra coisa.

Felizmente, sem consequências. Mas decisões e processos errados como esse, em outras aventuras, podem ser a diferença entre sucesso e fracasso. Vida e morte. Dessa vez passou.

Pelo visto meu anjo da guarda vai pedir aumento de salário no final da viagem!!!

Bom, instalei o radiador e resolvemos seguir viagem para testar.


Nada. Continua quente.

Se ando a 3000rpm (105km/h reais no GPS), sobe para 88-92oC.

Se ando a 2500rpm (80km/h reais no GPS) permanece entre 85-89oC.

Já era final de tarde, o sol baixando. Ainda não tínhamos almoçado.

Como andar na temperatura limite não é uma boa opção, resolvei tirar a válvula termostática (que o pessoal do Roraima 4x4 não leia isso aqui!!!!).

Tá eu confesso. Gambiarra mesmo. Do mais puro remendo provisorio definitivo.

O fato é, quero chegar em Roraima rodando. Só vale chegar andando a pé depois de carregar o Azulão nas costas por meia maratona pelo menos, seja qual for o motivo. Aí sim eu admito desistir.

Lanche-almoço ligeiro. Tirei a válvula termostática e seguimos viagem.

Consegui uma diminuição de 5oC em média, mas a 3000rpm ela ainda sobe.

Veremos como fica amanhã. Se não resolver, vou improvisar um defletor e atrasar um pouco o ponto de ignição. Dessa forma ganho mais alguns graus de limite.

 



Escrito por =Loras= às 22h09
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Hoje o galo cantou cedo.

Noite preocupante. Ansiedade prejudica a qualidade do sono. Vida... certo?

O Humberto passou para me pegar no hotel às 08hs. Diagnóstico preciso. O comando "roletou". Isso é, uma peça NOVA, comprada numa reconhecida oficina de preparação de carros em SP simplesmente estragou com 1.200km aproximadamente. Unbeliveable!!!

Com isso danificou os tuchos, impossibilitando a abertura correta das válvulas, baixando o espírito Tropa de Elite no carburador.

Injustiça. Eu havia pesquisado muito. Escolhi comando em eixo bruto, de uma das marcas mais recomendadas. Atravessei metade de S. Paulo para buscar a peça... juro que não consigo descobrir o motivo oculto desse fato. Bom, acontece nos melhores opalas, né mesmo?

Espero que a loja seja profissional, ética, e responsável, devolvendo a quantia paga pelo comando trabalhado, bem como ressarcindo as despesas advindas de tal pane durante a viagem. Chegando em Roraima entrarei em contato para resolver a questão. Veremos... senão dá-lhe Procon e pequenas causas neles.

Fotos do comando oval...

Ainda de manhã o Celso gentilmente acompanhou papai ao centro, para a compra do leitor de cartão (obrigado pela prestividade Celso, prazer conhecê-lo!!!)

Ser sistemático tem suas vantagens. Como havia comprado as peças no dia anterior o término do serviço seria rápido. Não gosto mesmo de esperar algo que poderia ter resolvido antes.

Só precisavamos encaixar a engrenagem no eixo de comando novo. Dessa vez um eixo com medidas originais de reconhecida marca, Resolit. Tuchos hidráulicos novos.

Fotos da retífica onde foi feita o serviço, em homenagem ao grande amigo Elmer.

De volta a oficina, tudo praticamente pronto. 

Aproveitei o pit stop forçado para atualizar as fotos!!! Finalmente o leitor de cartão estava em nossas mãos, como vocês podem observar pelas fotos postadas.

Escritório improvisado emprestado e voilà!!!

Enquanto isso no palácio de justiça...

O Celso, aproveitando a manhã livre do dia pré-curso, fez uma breve visita a oficina.

Definitivamente, coincidências são esquisitas.

Ele procura um volante preto, original do Opala Comodoro 77. Exatamente aquele que tirei do carro para instalar o atual...

Fico feliz que o antigo vai para boas mãos!!! :-)

Na foto, o Celso de azul.

Celso, papai e o pai do Humberto.

Ronaldo o mecânico ancião. Papai, pai do Humberto e Humberto.

Pela opção de retornar o comando aos parâmetros originais, seria necessário recalibrar o carburador, calando os estouros de vez. Meus ouvidos são sensíveis.

Assim fui encaminhado ao representante da Bosh em Anápolis, cuja oficina trabalha com bombas injetoras, injeção eletrônica e carburadores.

A paixão de seu dono é clara pela composição de sua estante, né meeesmo?

Uma verdadeira imersão no universo automobilístico de Anápolis em 48 horas. Verdadeiramente intenso. Aproveitei para comprar a chave 22, uma chave de vela e um macaco.

Acreditem se quiser. Esqueci o macaco. Meus neurônios estão em tilt. Efeito da idade avançada.

Incrível!! Conheci uma pessoa mais detalhista e meticulosa que eu. O cara teve a manha de testar CINCO bóias no carburador, até achar uma que apresentasse nível constante adequado. Isso depois de testá-las individualmente na bancada.

Coisa de cinema. Paciente, caprichoso. Marca cada parafuso do carburador com esmalte, para ter certeza de como o mesmo saiu de lá.

Fantástico!!!

Aliás, bons profissionais que trabalham com essa peça chamada carburador estão cada vez mais raros. Extinção, já ouviu falar?!? De comum acordo, acreditamos que em cinco anos no máximo, encontrar um profissional desses será como encontrar uma mosca branca de olhos azuis. Espero que até lá o Azulão já tenha recebido a sonhada injeção eletrônica... (certo Lau? Formou Rodrigão?)

Finalmente!!! Problema resolvido. Estou bem satisfeito com a decisão de consertar o carro e seguir viagem.

Ficou bem melhor que antes. Mais esperto, responde melhor em todas as faixas de rotação. Motor mais solto e provavelmente mais econômico. Veremos.

O carro ficou pronto às 18 horas. Não gosto de dirigir a noite, portanto amanhã partimos. Melhor assim.

De volta ao hotel da primeira noite, a coluna de Jesus precisa de um repouso mais adequado.

Uma pequena diferença de conforto... e preço por consequência.

Confesso que meu bolso sente saudade das baratáceas. Elas entendem minha loucura!!!

Amanhã temos um loooooooongo trajeto pela frente, ele precisa estar 100%.

Quase 800km a 80km/h é muuuuuuito chão. Sem nenhum imprevisto, é claro.

Bom, vamos que vamos!!!

22:50. Hora de dormir. Partiremos às 06:45.

ZZZzzzzz.... ZZZzzzz... ZZZZ.... ZZZzzzzz...



Escrito por =Loras= às 22h54
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Trecho Anápolis - Anápolis

Noite bem durmida. Após confortante sono em um colchão 05 estrelas, concluo definitivamente minhas vértebras merecem uma cama melhor em Boa Vista.

Café da manhã suculento com ovos mexidos, salsicha e frutas da estação. Em seguida fui examinar melhor a tosses do Azulão. Regulei novamente a folga das válvulas. Sem efeito. Alterei o ponto de ignição. Sem efeito. Rezei. Sem efeito. Meditei. Sem efeito. Preocupei. Sem efeito.

Carregamos o carro e decidi observar seu desempenho na estrada. Anápolis é um ponto estratégico da viagem. Daqui a Belém 2.000 km aproximadamente e poucos recursos no caminho. Ou seja, a chance de complicações e dificuldades por falhas mecânicas daqui para frente serão muito mais difíceis de resolver. 

Nos primeiros 25km algo muito estranho. Carro sem força, engasgando muito. Nem Heimlich resolveria!!! Aos poucos comecei escutar uns tiros no carburador.

Putz, melhor voltar!!! Meia volta volver!!!

Milhares de pensações flutuando na massa cinzenta.

Combustível adulterado?

Válvulas reguladas erroneamente?

Carro fora de ponto?

Macumba?

Mau olhado?

Bruxaria?

Felizmente encontrei um auto elétrico na primeira entrada da cidade. O dono do estabelecimento prontamente me ajudou. Ligou para um amigo que veio até o local averiguar.

Testamos os cabos de vela. Testamos as velas. Tudo em ordem. A faísca em cada um dos cilindros estava perfeita. Só poderia ser algo no cabeçote.

Como a retífica do mesmo havia sido completamente realizada ainda em SP, era pouco provável que o problema fosse dele.

Liguei para um amigo em Roraima que tem conhecidos perto de Brasília. Esses são famosos por seus opalas de arrancada. Olhei no mapa. 250km de distância até Cristalina. Muito longe para arriscar uma visita inesperada.

E agora? Momento de tensão e decisão. Improviso.

Exatamente o tipo de experiência que uma viagem desse tipo apresenta como desafio. O que fazer?

Recolhe todos os dados disponíveis. Levanta informações. Escuta sugestões.

Matuta. Pensa. Elabora. Raciocina. Decide.

Despacho o carro de cegonha para RR? Vou de avião?

Mando Jesus de volta a SP buscar os mecânicos Toninho e Fernando?

Vou rodando assim mesmo até a próxima cidade?

Choro? Dou risada? Grito? Corro?

Enquanto tudo ocupava o processador, um rapaz ofereceu carona até o posto de gasolina. Eu precisava de combustível novo para afastar a hipóteses de gasolina adulterada.

No caminho a decisão.

Vou até onde o prazo das férias permitir. Quando ele acabar, resolvo como concluir o roteiro. Mas antes do tempo, não.

Vou arrumar um jeito de arrumar o carro.

De volta ao eletricisita… liguei para a oficina Fercar. Consultoria a distância, chique não?!?

Possibilidade: pane da vela. Novas velas. E nada. Cof cof cof.

Naquele local o problema não seria resolvido. Não havia estrutura nenhuma. Nem macaco, nem nada. A fome bateu.

Isso seria mais fácil de resolver. Entramos no carro e começamos a rodar sem destino em Anápolis, rumo ao restaurante mais próximo.

Eis que...

"No meio do caminho tinha uma oficina. Tinha uma oficina no meio do caminho."

Oficina Planalto. Portões abertos e um monte de Jeeps lá dentro.

Em Brasília, tudo acaba em pizza

Em Anápolis, tudo acaba em jeep.

Coincidência? Força da Providência (by Shackleton)?

Seria um sinal dos deuses que eu nunca deveria ter comprado um carro antigo 4x2?

Um sinal de que carros 4x2 não me farão feliz?

Arrisquei e entramos.

Conversando com o filho do fundador e atual proprietário Humberto, combinamos de examinar o Opala para diagnosticar o problema do paciente.

Fato curioso. O tal Humberto é proprietário dos seguintes carros: Caravan Comodoro, Caravan SS, F-75, C-10, Del rey. Todos antigos e bem cuidados.

Depois o louco sou eu!!! Acho que vou repassar merecidamente a plaquinha de Museu para seu verdadeiro dono. Que seja feita justiça!!!

Seu pai foi funcionário da concessionária Willys (fábrica dos tradicionais Jeeps) aqui em Anápolis. Quando saiu de lá resolveu montar oficina própria, trabalhando mais de 40 anos no ramo. Acabou passando pela oficina no exato momento em que estávamos por lá.

Enfim, com um currículo desses Opala + Jeep, unidos jamais serão vencidos! Confiei e decidi fazer os serviços lá mesmo.

Um sinal que o caminho escolhido estava certo!!!

Diagnóstico provável: junta do cabeçote queimada. O carro não havia aquecido, nem fervido. Não havia água misturada no óleo. Mas o barulho era característico.

A segunda opção, comando de válvulas arredondado. Ou tuchos quebrados.

Não preciso nem dizer que a lei de Murphy novamente agiu. Desmontamos tudo e a junta estava perfeita. O motor muito carbonizado, denunciando que vinha rodando com excesso de combustível. Hum...

Junta nova e tudo no lugar novamente. Nem sinal de queima no quarto cilindro. Cof Cof Cof. Além dos clássicos tiros Tropa de Elite no carburador.

O próximo passo. Averiguar o comando. Desmonta a tampa lateral. Retira-se as varetas. Bingo.

Seu Ronaldo, o mecânico ancião tinha razão desde o princípio.

Os tuchos foram literalmente comidos. Foi cavada uma depressão em cada um deles, principalmente nos do quarto cilindro, explikcando o motivo do cof cof.

Unf.  17 horas. O dia todo para descobrir o problema. Comprei um comando novo original e tuchos hidráulicos por via das dúvidas. Não sei ainda como está o comando em uso. Nem quero saber. Depois resolvo com o fornecedor como usar a garantia. Provavelmente está danificado. Terminaremos de desmontar amanhã cedo.

O almoço? Ao lado da oficina o simpático restaurante de uma senhora que preparou um delicioso bife acebolado com arroz, feijão e salada. Problema de fome, facilmente resolvido.

Bola para frente. Muitos quilômetros a rodar. Viajar é preciso.

O Humberto gentilmente se propôs a nos levar a um hotel. Ao lado do shopping, dessa forma não precisariamos pegar taxi para o jantar. Dessa vez o critério geográfico falou mais alto. Mesma avenida da oficina, no mesmo quarteirão do shopping. Duas estrelas, um colchão que define precisamente o estrado da cama e um banheiro com direito a acompanhantes baratáceas.

Enquanto estávamos na recepção do hotel, um senhor se aproxima.

  -      - A caravan é 6 cilindros?

Bom começo de conversa. Papo vai, papo vem, conhecemos o Celso, que trabalha pelo Brasil ensinando uma profissão diferentes para as pessoas.

Lhes ensina como fazer flores artificiais. Se encontra em Anápolis para um curso que iniciará em dois dias. Está hospedado no mesmo hotel que nós.

O detalhe: é dono de dois opalas e junto com seu filho participa do fórum Opaleiros do Paraná. Presenteou seu filho aos 18 anos com um Opala Diplomata fantástico!!

 

Aí nem precisa dizer. Lero suficiente para preencher os 4.000km de estradas que separam SP de Boa Vista.

Além dos Opalas, descubro que ele é feliz proprietário de um Fiat 147 turbinado, uma BMW 325i e pretende comprar uma Caravan.

 

Excelente terapia em grupo!!! Concluo que não sou louco e hoje dormirei mais feliz!!! :-)

Fotos de um dos carros deles aqui:

http://www.opaleirosdoparana.com/galeria-de-fotos-imagens-f6/opala-cupe-77-4cc-branco-t5324.htm

Estou me julgando bem normal depois disso tudo. Sério.

Resolvemos jantar.

No shopping… na fila do cinema encontro um velho amigo da época de faculdade, que atualmente trabalha no SAMU 192 de Goiania. 

Conversamos brevemente e infelizmente ele entrou apressado pois a sessão já havia começado.

Para quem curte resgate e afins: www.samugoiania.com.br

Resumo:

Meu carro quebra em Anápolis. Acabo conduzido a uma oficina cujo proprietário tem Opala e Jeep. Curiosamente escolhemos o hotel perto do hospping para se hospedar. No hotel eu conheço um Opaleiro muito gente boa. No shopping reencontro um velho amigo de bons papos, que por algum motivo se atrasou para sua sessão de cinema. 

Coincidência? Forças da Providência (by Shackleton)?

Eu não acredito em destino. Mas talvez as "coincidências" tenham motivos ocultos para acontecer… resta saber como você prefere interpretar tais acontecimentos.

Curioso né mesmo? Alguém se habilita a explicar?

Parece que um anjo da guarda fez questão de me deixar em Anápolis por mais tempo. Bom, ficarei por aqui até ele resolver me acompanhar a Roraima.

Talvez amanhã.

Enquanto escrevo esse texto, recebo uma ligação inesperada. Done Irene. Vos apresento. Minha mãe em Boa Vista. Cuida da casa, da garagem, da roupa, da geladeira. Cuida de mim principalmente.

Ligou, preocupada com a falta de notícias. Tranquilizada, comunicou-me que pelo menos a casa lá continua de pé. Uma boa notícia!!!

Até amanhã.

 



Escrito por =Loras= às 21h59
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